Padre descreve as lições éticas que a pandemia do COVID-19 poderá ensinar

Padre Sérgio Grigoleto, faz uma análise das lições éticas que a pandemia do COVID-19 poderá ensinar

Diante dos acontecimentos dos últimos dias, causados pela pandemia de covid-19, creio que, assim como eu, vocês também receberam uma imensidade de mensagens e de memes pelas redes sociais. Uma mensagem, dentre tantas que recebi, ajudou-me a refletir sobre as lições éticas que esta verdadeira calamidade pode nos ensinar.
Tal mensagem tem a autoria atribuída ao professor e querido amigo Márcio Fabri. Como me ajudou, quero compartilhar estas lições com vocês.

A primeira lição ética que esta situação talvez possa nos ensinar é que “as crises só servem para o mercado ganhar mais dinheiro”. Podemos aprender isso olhando a escalada de preço do álcool gel, que inclusive teve que ter seu preço tabelado pelo governo e que agora, felizmente, passa a ser vendido no Brasil pelo chamado preço de custo. Muitos memes nos faziam rir, propondo trocar frascos deste produto por casas na praia ou outros bens de grande valor econômico. Porém, esta é uma realidade muito triste. Esse fato deve nos ajudar a perceber que, para a lógica de mercado, o que importa é o lucro, mesmo quando vidas estão em risco. Nesse sentido, tivemos possibilidade de acompanhar pelos meios de comunicação a terrível situação de outros países devastados pelo novo coronavírus, onde o sistema de saúde e também o sistema funerário entraram em colapso.
Trazendo para a nossa realidade brasileira, apesar de que as primeiras vítimas a falecerem por conta da covid-19 morreram em hospitais particulares, devemos nos dar conta de que “na hora que a coisa aperta, até os planos de saúde e os hospitais privados mandam os pacientes para o SUS”, e que “na hora do ‘pega pra capar’, só se pode esperar ajuda do Estado”. Daqui a necessidade de fortalecermos nosso Sistema Único de Saúde, mesmo que você seja rico e tenha um plano de saúde privado, você também precisa e depende do SUS. Esta é a segunda lição que o coronavírus pode nos ensinar: “estamos todos no mesmo barco”.

A segunda lição ética que podemos aprender diante desta catástrofe, mesmo em tempos de individualismo e indiferentismo é que “estamos todos no mesmo barco”. Ninguém está protegido ou seguro sozinho, pois tudo está relacionado com tudo, conforme destaca o Papa Francisco em sua encíclica Laudato Si, a qual nos ajuda a percebermos a ecologia de maneira integral e o planeta como nossa casa comum. Por mais protegido que alguém possa se sentir em seu “isolamento social”, seja voluntário ou imposto pelas autoridades, a verdade é que ninguém está totalmente isolado. Estamos todos relacionados, e a saúde e o bem-estar de uns, estão diretamente relacionados à saúde e ao bem-estar dos outros. A covid-19, nos ajuda a perceber isso, quando nos damos conta de que podemos nos contagiar e podemos contagiar a outras pessoas de maneiras muito simples e até banais do dia a dia. Embora no Brasil os primeiros a contraírem este vírus foram pessoas que viajaram à Europa, devemos destacar o grande potencial de propagação deste vírus, e que ele não faz distinção de classe social ou econômica. A  mensagem atribuída a Márcio Fabri destaca que mesmo os mais “ricos, que moram em condomínios fechados, com vigilância monitorada e álcool gel em todas as peças da casa” podem ser contaminados pelos pobres que estão expostos mais diretamente ao contágio do novo coronavírus, seja através daqueles e daquelas que os servem em suas ricas casas, mas que para chegarem ao trabalho devem se submeter ao transporte público superlotado, ou pelo entregador dos serviços “delivery”, que sem ter as garantias trabalhistas, se vê obrigado a continuar trabalhando, mesmo diante do risco direto que corre. Aqui, a recíproca também é verdadeira. A primeira vítima da covid-19 no Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica que foi contaminada por sua patroa, que contraiu a doença em uma viagem à Itália. É triste vermos também outras mensagens e memes que viralizaram nas redes sociais, mostrando pessoas brigando porque uns querem comprar todo o estoque de álcool gel que há no supermercado, deixando os outros sem o produto.  Precisamos aprender que, literalmente, “estamos todos no mesmo barco”. Ou seja, não importa se você está em primeira classe ou em classe econômica, se o barco afundar, afundamos todos juntos. Destaca Fabri: “ou todos estamos seguros, ou ninguém está”. Apenas a solidariedade pode nos ajudar a superar esta pandemia.

A terceira lição que esta pandemia pode nos ensinar, é que devemos pensar melhor em quem elegemos para os cargos executivos, e eu acrescentaria, também para os cargos legislativos. Diante da tragédia que esta pandemia apresenta, fica clara a importância de termos dirigentes capazes e competentes para governar. Devemos também aprender a necessidade de termos políticas públicas capazes de não apenas oferecer a ajuda médico-sanitária de prevenção, acolhida e tratamento aos doentes, o que diante da nossa realidade, já seria bastante, mas também necessitamos de políticas econômicas que ofereçam ajuda e proteção às empresas e aos trabalhadores, bem como à grande massa de desempregados e trabalhadores do mercado informal, muitos dos quais, diante desta situação de quarentena, veem-se privados até do necessário à subsistência.

A quarta e última lição que, segundo a mensagem, esta pandemia pode e deve nos ensinar é o valor e a importância da ciência. Nos últimos anos, no Brasil, as instituições de pesquisa científica vêm sofrendo grandes cortes de verbas e são, muitas vezes, por alguns setores da sociedade, desconsideradas e rotuladas como “comunistas”. Aqui é bom lembrarmos que estamos todos avidamente esperançosos de que se descubra uma vacina contra o novo coronavírus. Quem fará esta grande descoberta senão os pesquisadores?  Não podemos esquecer de que no Brasil, no último ano, houve várias mortes provocadas pelo sarampo. Uma doença que já tem vacina e que, inclusive, essa vacina é disponibilizada pelo Sistema Único de Saúde. Todos queremos uma vacina contra o novo coronavírus, mas nem todos se vacinaram contra o sarampo, que também é uma doença que pode levar à morte. Muitas doenças já foram erradicadas e vencidas em nossa história graças ao trabalho de pesquisadores e pesquisadoras que, muitas vezes, tiveram que lutar contra outros grandes males, como a ignorância e o descaso, em primeiro lugar por parte dos dirigentes políticos e, depois, de setores da população. Esta pandemia nos faz ver que nem todos os inimigos podem ser vencidos com fuzis, tanques de guerra ou aviões bombardeiros e que, no momento, o inimigo que ameaça a humanidade poderá um dia ser vencido com uma vacina descoberta por um pesquisador ou pesquisadora.

Além destas quatro lições éticas, certamente esta pandemia bem como os dias que teremos de quarentena ou “isolamento social” nos ajudarão a aprender muitas outras lições. Estejamos atentos e aprendamos.

Publicação: Érica Bolonhezi
Jornalista Diocesana e PASCOM
Fonte: Padre Sérgio Grigoleto
Doutor em bioética, secretário executivo do CELAM  (Conselho Episcopal Latino-Americano e do Caribe)

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